segunda-feira, 19 de junho de 2023


 http://www.al.rs.gov.br/Download/CMPPLP/audienciaterrnegra.pdf   

Este trabalho histórico ao qual escrevi sobre " A Colônia Africana em Porto Alegre-RS" 

demarcou um período de  mobilização e organização das comunidades remanescentes 

de quilombos do Rio Grande do Sul. Na época fizemos uma caravana do Movimento

Negro Unificado-MNU durante dois meses pelo interior se reunindo com 70 comunidades

 rurais negras  em diferentes regiões do RS. Em seguida, conquistamos o primeiro Quilombo

Urbano do Brasil, a Família Silva, esse reconhecimento deflagrou um movimento nunca visto

no território nacional; reivindicações de titulação da territorialidade negra urbana em todo Brasil.

 Esse documento é importantíssimo para pesquisas e debates.  Emir.    




 Organizei e escrevi esta Revista em 2008 com Introdução da amiga, Aida Gomes da Silva.

Conselheira da Organização das Nações Unidas para Missões de Paz na África.

Cientista Política, Psicóloga e Escritora Literária da Universidade de Nijmegen-Holanda. 

Aos interessados para pesquisa, talvez a SMED de São Leopoldo tenha exemplares ou a digitalização.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

 






Hoje faleceu o companheiro Nado, Arnaldo Vicente Filho, do Movimento Negro Unificado de Pernambuco.
A última fez que estive ao seu lado, no carnaval do 2020 em Recife, no encontro dos Afoxés idealizado por Nana Vasconcelos; conversamos na grade entre os Afoxés e o público, local onde registrei imagens emocionantes dos tambores afro-brasileiros e daquele povo cheio de energia, beleza e axé. Percebi sua tensão e responsabilidade em participar daquela equipe técnica que carrega o legado simbólico dos tambores pernambucanos, africanos e de nossa ancestralidade de matriz africana. Trago essa lembrança da saída do Afoxé Alafin Oyó que homenageava o Movimento Negro Unificado com a força de Xangô. Nado era artista, escultor, produtor cultural e foi dirigente nacional do MNU.
Meus pêsames aos familiares.
Emir Silva. 09de junho de 2023.

quarta-feira, 24 de maio de 2023




Relatório da Comissão Externa pela promoção da  Igualdade Racial no Esporte no RS.



Diante das reincidências de casos de racismo contra o jogador Vinícius  Júnior do Real Madrid com repercussão mundial, trago para subsidiar parlamentares e movimentos sociais este relatório que apresentamos na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, enquanto mandato do Deputado Edson Portilho do Movimento Negro Unificado e Partido dos Trabalhadores-RS, depois de várias Audiências Públicas que realizamos na década de 2010. 

Em seguida, trago a coluna Futebol e Política que escrevi sobre o mesmo assunto. 

Emir Silva.  

As resoluções relatadas foram resultantes dos debates realizados em audiências
públicas em Porto Alegre no dia 21/06, e em Caxias do Sul em 26/06.

Conforme Estatuto da FIFA, Federação Internacional de Futebol, em seu artigo
3º “ Fica proibida a discriminação de qualquer país, indivíduo, ou grupo de pessoas
por sua origem étnica, sexo, língua, religião, política, ou qualquer outra razão, sendo
punido tal ato com suspensão e exclusão.” 

Em 2001 em Buenos Aires na Argentina realizou-se a Conferência Contra o Racismo no Futebol encaminhando uma resolução com diretrizes contra o preconceito racial no esporte, buscando combater a intolerância e a xenofobia nos estádios. 

Os gramados europeus tem apresentado atitudes racistas dos torcedores em vários países. No Brasil, acompanhamos fatos recentes de discriminação, como no caso dos jogadores Grafite do São Paulo, Tinga do Inter, e Jeovânio do Grêmio. Todos vítimas do preconceito racial em sua atividade
profissional. Considerando que tais atitudes refletem as relações na sociedade de
distinção da cor da pele. Onde principalmente os afrodescendentes são alvos desse
processo de inferiorização étnica. 

Devido principalmente ao processo histórico de escravismo, que espoliou desumanamente o continente africano. Trazendo conseqüências que relegam os descendentes de africanos á exclusão sócio econômica, política e cultural, em todo o mundo. 

Onde constatamos que as manifestações racistas no futebol, estão relacionadas com esses fatos nefastos da história da humanidade. Nesse sentido foi criado grupos de Embaixadores da FIFA contra o racismo, que será formado por grandes jogadores e personalidades do futebol. Liderado pelo Francês
Thierry Henry, e com participação de Ronaldinho Gaúcho e Luís Felipe Scolari.

Sendo lançada a campanha “Levante-se e Fale”, o símbolo é uma pulseira entrelaçada
com as cores preto e branco. 

A orientação da FIFA é que as Confederações Internacionais e Federações Nacionais e Regionais tomem medidas articuladas com o poder executivo, legislativo, e judiciário, clubes de futebol, torcidas, árbitros, meios de comunicação, iniciativa privada, e o meio futebolístico em geral. 

A Comissão Externa pela Promoção da Igualdade Racial no Esporte ampliou em sua criação o
debate para todas as modalidades esportivas. Dialogando com Federações,
Associações, e Atletas de Esportes Coletivos e Individuais, de todo o Estado do Rio
Grande do Sul. 

E possibilitando a proposição de medidas educativas, e preventivas sobre o preconceito étnico no esporte, resgatando a sua função de integração social entre os povos de todo o mundo. 
Como denunciando fatos graves de xenofobia que possam tornar-se irrelevantes, normais, ou corriqueiros, sem a devida compreensão do caráter pejorativo, e sua conotação racista. 
Mesmo que as manifestações das torcidas, e os xingamentos entre os jogadores, tenham o objetivo de pressionar, e desestabilizar o adversário. Sabemos que tais expressões são reflexos da construção
de uma identidade étnica oriunda do escravismo, da segregação, e da espoliação
desumana. 

Onde os africanos foram tratados como animais, pois não tinham alma,
como garantia a legislação escravocrata, inclusive no Brasil.

 Contudo, os Estádios de Futebol, Ginásios, Quadras, Pistas, etc, não podem institucionalizar espaços neutros de expressões, e agressões preconceituosas. Resultado de uma situação crônica e
emblemática vigente na sociedade. Ainda mais num país que a metade de sua
população é Afrodescendente, sendo o segundo em população negra do mundo, após
a Nigéria. 

Além disso, o Brasil carrega uma dívida histórica, Reparar os crimes
cometidos com a manutenção da escravidão 350 anos. Não podendo admitir e tolerar
também no esporte, atitudes pejorativas e racistas. Onde a sociedade possa extravasar
livremente seus preconceitos, incorporados historicamente como manifestação
evasiva de tensões emocionais, sociais, ou de falta de consciência sobre o respeito ás
diferenças, e a cidadania.

 Na Europa, as manifestações racistas são reflexos do aumento de africanos, latinos, asiáticos, que representam o terceiro mundo colonizado e explorado pelos europeus. Que não admitem a convivência social ao mesmo nível, bem como a disputa ao mercado de trabalho, devido o aumento do
desemprego, e da crise política e econômica mundial.

 A torcida da Lázio da Itália,  por exemplo, tremula bandeiras nazistas nos estádios, demonstrando uma concepção ideológica de supremacia racial. Nesse sentido, o poder público tem a responsabilidade de tomar iniciativas conjuntamente com as representações esportivas, apresentando propostas para educar, prevenir, e combater qualquer tendência resultante da ideologia racista . Sendo assim, o resultado das audiências públicas realizadas trouxeram os seguintes encaminhamentos:

· Cobrar medidas do Ministério Público através de “Termo de Ajustamento”, que
acompanhe e faça cobrança da Confederação Brasileira de Futebol, das
Federações Regionais, e dos Clubes, sobre as deliberações da FIFA, que em suas
resoluções coibem atos racistas, e discriminatório nos jogos de futebol.

· Acompanhar a Legislação atual da Justiça Desportiva para cobrar sua
implementação em relação a punição efetiva dos responsáveis pelos atos racistas.
Como exemplo: Perda de Mando de campo, de pontos, multa aos clubes,
dirigentes, e multa ou suspensão aos jogadores.

· Acompanhar e debater o cumprimento do Estatuto do Torcedor, como direito do
cidadão, informando a sociedade.

· Apresentar uma campanha contra o Racismo no Esporte, articulada com
Instituições Públicas e Esportivas. Lançando no Brasil a campanha “Levante-se e
Fale” da FIFA coordenada pelo jogador francês Thierry Henry.

· Articular a realização de uma Conferência Internacional da FIFA contra o
Racismo no Brasil, sediada em Porto Alegre.

· Criação de uma cartilha informativa com conteúdo alusivo ao tema.

· Criar materiais de divulgação com confecção de camisetas, bolas, bonés,
pulseiras, almofadas, adesivos, chaveiros, medalhas, troféus, e outros produtos.

· Promover propaganda nos meios de comunicação da grande mídia, como na s de
comunicação interna dos estádios; placar eletrônico, carteirinha de sócios, placas ,
ingressos, camisetas etc.

· Promover debates nos clubes com dirigentes e jogadores.

· Apresentar jogadores negros e brancos como atores em campanhas públicas.

· Articular grito de guerra das torcidas organizadas contra o racismo.

· Criar projetos de caráter educativo na rede pública estadual e municipal de ensino.

Articulando com as Secretárias Estaduais e Municipais de Educação, Esporte e
Lazer, quanto com Ministérios de Educação, Esporte e Lazer.

Deputado Edson Portilho – Coordenador da Comissão Externa pela Igualdade no
Esporte no RS.

Porto Alegre, 27 de Junho de 2006.


FUTEBOL E POLÍTICA:

RACISMO NO FUTEBOL NA ESPANHA, BRASIL E OS GRUPOS NEONAZISTAS INFILTRADOS NAS TORCIDAS ORGANIZADAS NO RIO GRANDE DO SUL.

Brasil e Espanha assinaram, a poucos dias, um acordo mútuo de Combate ao Racismo.
As ações acordadas devem ser implementadas imediatamente como política de Estado que orientem todos os países.
A violência racial contra Vinícius Jr no jogo de ontem pela Liga Espanhola entre Valencia e Real Madrid é um crime encoberto pela desfaçatez e populismo das instituições esportivas, governamentais e empresariais na Espanha e no Brasil onde, cotidianamente, também acontecem vários casos há décadas.
O Rio Grande do Sul é o estado do Brasil onde as organizações neonazistas estão em maior número; algumas foram descobertas no enfrentamento ao racismo no futebol.
Em 2010, publiquei esse texto, que resumi e adequei agora, denominado: NEULAND.
O termo em alemão significa “Terra Nova”, denominação de um dos grupos neonazistas articulados no Rio Grande do Sul e envolvidos numa série de ataques racistas contra negros, índios, judeus, homossexuais, punks e movimentos populares nos últimos anos.
O White Power Sul Skin, poder da raça branca do sul, outro grupo, além de vários como Stormfront e a velha Klu Klux Klan, por exemplo, são responsáveis por agressões e ameaças a indivíduos escolhidos para morrer; investigações da Polícia Civil gaúcha relacionadas aos grupos neonazistas em torcidas organizadas descobriu um escritório no centro de Porto Alegre-RS apreendendo um vídeo entre outros materiais que tinham como alvo o assassinato do Senador Paulo Paim reeleito no último dia 3 de Outubro de 2010.
Desde o início da década de 2000 o movimento negro gaúcho tem denunciado o surgimento dessas organizações de extrema direita articuladas em milícias urbanas e estruturadas em pequenos grupos ideológicos neonazistas pelo interior do RS.
Na época, o jogador Grafite, hoje comentarista, quando jogava no São Paulo foi discriminado no Estádio Olímpico, estádio do Grêmio; Paulo César Tinga foi ofendido no Alfredo Jaconi, Estádio do Juventude, em Caxias do Sul.
A partir daí a 1° Delegacia de Polícia de Porto Alegre começou a investigar algumas torcidas e descobriu núcleos neonazistas; o delegado Paulo César Jardim apresentou em audiência pública na AL-RS como esses grupos se organizavam, quais os empresários que financiavam e os crimes que essas pessoas cometiam nas caravanas.
Os casos foram nas torcidas: Geral do Grêmio e Papada do Juventude.
Em 2005 foi instalada na Assembléia legislativa do RS uma Comissão Especial Para Promoção da Igualdade Racial no Esporte, deflagrando tais investigações, proposta apresentada pelo deputado estadual Edson Portilho do Movimento Negro Unificado e Partido dos Trabalhadores, a pauta foi tratar de vários casos de racismo nos estádios de futebol contra jogadores e torcedores protagonizados por Skinheds infiltrados em torcidas organizadas.
Os fatos foram denunciados, em relatório, na Federação Gaúcha de Futebol e Confederação Brasileira (CBF) conforme diz o Estatuto da Fifa em seu artigo terceiro “é proibida a discriminação de qualquer país, indivíduo, ou grupo de pessoas por sua origem étnica, sexo, língua, religião, política, ou qualquer outra razão, sendo punido tal ato com suspensão e exclusão.
Na Europa , as Federações; Espanhola, Portuguesa, Alemã e Italiana formaram comissões de combate ao racismo no futebol.
Essas manifestações em vários países de intolerância e xenofobia em espaços públicos de esporte, cultura e lazer, bem como no cotidiano das relações de trabalho refletem tendências de concepções políticas segregacionistas e de superioridade racial em atividades de massas, grandes aglomerados populares, e contra personalidades públicas; pela própria dimensão e propagação em larga escala do preconceito racial de forma coletiva, escrachada e organizada para encorajar adeptos com naturalidade ideológica.
A realização da Copa do Mundo na África do Sul, 2010, contribuiu para o fortalecimento da promoção da igualdade racial em todos os continentes quebrando também esteriótipos de inferioridade e incapacidade relegados historicamente ao continente africano.
Nos estádios de futebol no Brasil as expressões racistas são resultantes do Racismo Estrutural e da falta de concientização da sociedade que incorpora o preconceito como manifestação de inferiorização inumana nas atividades de diversão em comportamentos de ignorância, entusiasmo e êxtase; principalmente nos momentos negativos de uma jogada de passe errado ou de um gol perdido.
No caso de Vinicius Jr, é por ser craque e negro.
O espaço dos estádios de futebol na concepção popular é neutro e considerado apto para extravassar qualquer atitude o que tem fortalecido o preconceito, inflingido o direito de milhões de torcedores em garantir princípios educacionais básicos.
Além disto, o Estatuto do Torcedor, da Criança e do Adolescente, do Idoso e da Igualdade Racial devem ser incorporados com maior eficácia nos jogos de futebol pelas Federações e Clubes.
Este ano em Teotônia-RS, cidade do interior gaúcho, apareceram placas de trânsito com o símbolo da Suástica, a Cruz Gamada, “aquilo que traz sorte” no provérbio.
Em 2009, foram relacionados uma sequência de casos no RS e no Brasil; na mesma cidade, Teotônia-RS, foram apreendidos mais de 300 exemplares de livros com conteúdo neonazistas além de fardas e materiais militares.
Em Porto Alegre-RS, um segurança negro foi esfaqueado numa Estação do Trensurb; e após o assassinato de um casal no RS foi descoberta uma base neonazista no Paraná-PR com planos de explodirem Sinagogas e atacarem negros e gays.
Em Caxias do Sul-RS aconteceram sete casos de agressões contra homessexuais.
Na Parada de São Paulo-SP da Livre Orientação LGBT (Lésbicas,Gays, Bissexuais, e Trangéneros) uma bomba foi jogada de um prédio contra os participantes.
Não esqueçamos que o maior índice de recrutamente dos grupos neonazistas são pela internet ao público jovem até 25 anos.
No Brasil, são 550 organizações neonazistas, essas organizações políticas tem raizes ideológicas no Integralismo da década de 30 influênciado pelo National Sozialismus (Nacional Socialismo), uma concepção nazifascista que conquistou o poder na Alemanha com o Terceiro Reich de 1933 a 1945 e que no Holocasto sob o comando de Adolf Hitler matou mais de 6 milhões de Judeus.
Os neonazistas se organizam muito em torcidas de futebol como no Lázio da Itália e outros clubes que acolhem ideologias de extrema direita.
Por outro lado, é responsabilidade dos poderes governamentais, legislativos e judiciários enfrentarem a corrupção nos clubes e a dívida das agremiações brasileiras com a previdência social e impostos fiscais de 3 bilhões de reais.
As redes de televisão e seus patrocinadores disputam audiência e vendas de mercado faturando milhões de reais em direito de imagem e transmissão; essas instituições, além de noticiarem, sequer são cobradas ou regulamentadas para a implementação de um programa contínuo de combate ao racismo condicionado aos seus contratos milionários.
O Racismo no Futebol e na Sociedade é um tema social complexo de responsabilidade dos Estados Nacionais.
Lembrei que quando iniciei essa coluna há dois anos recebi críticas de alguns idiotas que disseram:
O que o racismo e a política tem a ver com o futebol ?
Emir Silva
Imprensa Pan-africana.
22/05/23.

sábado, 8 de abril de 2023

ETARISMO E POPULISMO NEGRO

 

ARTIGO POPULAR DE MOVIMENTO SOCIAL.

 

UMA CONVERSA SOBRE ETARISMO UMA NOVA RAIZ QUE FORTALECE O POPULISMO NEGRO.

 

O etarismo, ageísmo, idadismo ou etaísmo são  preconceitos de aversão a idade que também podem discriminar os jovens, porém a exclusão dos mais velhos é mais relevante; no movimento negro é uma tendência vigente, ou seja, uma violência, as vezes desapercebida, mas acionada por vários mecanismos elencados pela máquina capitalista que  descarrega energia, ameniza o discurso, enfraquece a coletividade e desarticula os conceitos e discursos primordiais de consciência negra; é uma bomba negacionista jogada nas mãos de alguns ativistas contemporâneos que não enxergam ou não conhecem a origem da luta do Black Panthers, Malcolm X e dos movimentos de libertação do continente africano.


 


Nesta primeira edição apresentamos “O Artigo Popular de Movimento Social”, uma iniciativa descritiva e analítica sobre experiências da vida política através da oralidade dos indivíduos que convivem ou conviveram com temas evidenciados no dia a dia sobre assuntos relacionados as relações raciais integradas ao processo histórico de resistência negra e invisibilizados pelo sistema racista e capitalista.

Quarta-feira, 05 de abril de 2023, eu e Carmem Maia, minha companheira, dirigente nacional da ANLU- A Nossa Luta Unificada, fomos ao centro de Porto Alegre e percebemos um centro histórico eminentemente negro numa circulação populacional de trabalhadoras, trabalhadores e transeuntes com outros afazeres que percorriam trajetos e lugares construídos em grande parte pela população negra, espaço central de encontros que faz girar a tradição, a cultura, o comércio e a passagem na vida da cidade.

Quando chegamos no Mercado Público uma velha guarda do samba aglutinou muitas pessoas que estavam entre as compras na tradicional Feira do Peixe e a entrada principal do Mercado, aliás, ali em frente está o marco inicial do Museu do Percurso Negro, trajeto no centro da cidade que visita lugares e símbolos materiais e imateriais da resistência afro-gaúcha até então invisibilizada na memória da cidade.

Lembrei logo da ancestralidade “in memória” de Mãe Norinha de Oxalá, Nação Oyó, Mãe Maria de Oxum, filha da Mãe Menininha do Gantois, ali, no espaço sagrado do Bará do Mercado onde a grande irmã-companheira Iyá Vera Soares dá continuidade, no centro do Mercado, aos rituais sagrados desse assentamento primordial ao Batuque do Rio Grande do Sul que cultua essa divindade que abre caminhos sendo a guardiã das casas, cidades e representando o trabalho e a fartura.

Fomos encontrar o companheiro Dilmair Monte, militante de 70 anos, ferroviário, fundador do Partido dos Trabalhadores, PT, Central Única dos Trabalhadores, CUT, e Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira, CENARAB, sem dúvida um ativista de reconhecida trajetória no movimento negro brasileiro.

Conheci o Dilmair em Salvador, Bahia, lá por 1986 ou 87, na época que morei na capital baiana; lembro que nos encontramos na sede da CUT da Bahia, e tínhamos uma relação política comum na CUT Pela Base, campo do movimento sindical.

 Conosco estavam Antônio Matos, membro do MNU, fundador do PT, liderança comunitária com trajetória na construção e gestão do Orçamento Participativo, OP, e Felipe Oliveira, ativista do movimento negro da campanha gaúcha, Bagé, liderança nacional da luta antifascista e coordenador estadual do Movimento Negro Unificado.

 Conversamos no Café da companheira Iara Rufino, afroempreendedora que há décadas se consolidou como nossa referência no Mercado Público pelo seu trabalho e competência.

Naquela mesa, pelo menos tinha 300 anos de história, na verdade passou um pouquinho; foi literalmente uma tarde de troca de experiências!

Um dos assuntos que tratamos foi sobre o etarismo na política e o populismo efervescente no movimento negro como fenômenos que se enraizaram, a cada dia, interagindo concomitantemente na arena neoliberal onde a população negra acionada pelo discurso contra o racismo não percebe a predominância de ações diretamente relacionadas ao individualismo liberal.

 É óbvio que a luta contra o bolsonarismo é fundamental para combater o racismo, o sexismo e qualquer tipo de intolerância, esse enfrentamento vem fortalecendo e construindo novas lideranças que resistem as agruras do capitalismo e de suas próprias instituições segregadoras.

Esse contexto social contemporâneo é complexo de analisar por que a nova geração de ativistas é comprometida e responsável, porém essa época de eclosão tecnológica virtual transformou o comportamento dos indivíduos e da própria política; as redes sociais são arenas perigosas, de manipulações e distorções do discurso político; além das fake news, cookies espiões e controle dos dados pessoais para alta monetização das corporações multinacionais.

Ambiente muito diferente do “velho” trabalho de base, formação política e organização da resistência popular. Princípio fundamental de movimento negro.  

De maneira simples e objetiva podemos dizer que outrora os militantes do movimento negro tinham que passar a vida toda formulando ideias, legislações e políticas públicas a partir das organizações do movimento social negro; combatendo o racismo, pressionando o Estado e explicando ao poder público as necessidades de políticas sociais antidiscriminatórias através de constante mobilização.

 O processo histórico construído pelo “antigo” movimento negro organizado deflagrou a conquista ao acesso às cotas, a universidade, a política, aos partidos, ao arcabouço legislativo de combate ao racismo e, principalmente, ao ambiente social em que as instituições governamentais, legislativas, judiciárias, bem como a grande mídia (obrigada a reconhecer o racismo estrutural) solidificaram um caminho alicerçado no mecanismo social contemporâneo aos ativistas das novas gerações.

Além disto, o movimento negro também mudou, aumentando sua vulnerabilidade para o carreirismo de ascensão social e econômica porque a falta de formação política e o comportamento das redes sociais com forte viés liberal adentrou aleatoriamente as próprias organizações tradicionais através da postura de indivíduos equivocados que oscilam em diferentes ações contraditórias entre a luta contra o racismo e a centralidade no fisiologismo e assistencialismo; esses indivíduos trocam várias vezes de lugar político, não diferindo as relações com instituições, organizações ou partidos da direita neoliberal que oprimem as mulheres negras,  quilombolas e povos originários.

 A necessidade da retomada do debate político estratégico do movimento negro organizado é premente antes que a direita e o mercado financeiro transformem as ações afirmativas em créditos, como os créditos de carbono, por exemplo.

 A monetização da luta contra o racismo como forma lucrativa de rendimento financeiro está relacionada a realidade de cada país que implementa os princípios do Estado mínimo apresentados no Consenso de Washington, em 1989, que se tornou o manual do neoliberalismo, caso da economia brasileira.   

 Na Era dos robôs, o que eles responderiam sobre o racismo?

Reconheceriam o processo histórico do “velho” movimento negro?

O fato é que o domínio tecnológico induz os indivíduos a perpassarem virtualmente qualquer tema, instituição ou investimento, a população está totalmente integrada ao domínio das redes sociais e sua manipulação psicológica retratada no filme, “O Dilema das Redes”, 2020, direção Jeff Orlowski, inclusive, atualmente os cientistas estão preocupados sobre o avanço descontrolado da inteligência artificial como o chatGPT.

Nesse campo mais virtual do que territorial, diversificados segmentos disputam o mesmo espaço entre youtubers, outsiders, celebridades, influenciadores, artistas, tendências partidárias dirigidas na maioria por homens brancos e Organizações do Terceiro Setor entre Ongs e entidades filantrópicas que se multiplicaram amplamente.

Por outro lado, o movimento social negro histórico representado pelas organizações reconhecidas da esquerda negra brasileira balizaram a resistência desde a ditadura militar,  há 45 anos,  propondo agendas a partir do Projeto Político do Ponto de Vista do Povo Negro e Reparações ( resoluções do Movimento Negro Unificado-MNU)  como políticas permanentes de Estado com garantias orçamentárias investidas na maioria negra e pobre da população brasileira; disputar o orçamento para investimento em territórios negros é fundamental.  

Estamos num dilema de linhas distintas, as ONGS  priorizaram as relações com o mercado liberal entre bancos e multinacionais – como no caso do Carrefour, por exemplo, onde houve uma intervenção de ongueiros que impediram a continuidade da mobilização popular, inclusive à nível mundial desmobilizando articulações de lutas contra o Carrefour em vários países- quando buscaram indenizações milionárias para si enquanto um negro foi assassinado, esses especuladores se alinham fortemente às compensações do neoliberalismo.  

A idade do movimento negro organizado após a ditadura militar é quase cinquentenária, são 45 anos desde a fundação do Movimento Negro Unificado – MNU -, em 1978, meio século de trabalho físico e mental sem a possibilidade de estrutura ou tecnologia social para colher a grande plantação que cultivou durante décadas; esse espaço político do discurso racial tornou-se amplo e vulnerável a vários segmentos sociais, tecnocratas, e instituições de Estado.

O processo de burocratização da questão racial suprimiu ardilosamente a importância das organizações do movimento social negro, ou seja, o discurso que não interessa pela suposta “radicalidade” ou “divisionismo social”, porém ficou explícita a disputa de poder e liderança política sobre a população negra.

O monopólio midiático, o pensamento eurocêntrico acadêmico e a política tradicional disputam a base social negra, seja, intelectualmente ou eleitoralmente onde partidos, instituições públicas e privadas reproduzem o protagonismo retórico positivista sobre a população negra com interesse arcaico de organização social e segmento consumista na economia de mercado.

Nesse sistema de disputa liderado por homens brancos que negociam o “Establishment” – Grupo sociopolítico que exerce a ordem, privilégios e poder - a renovação de lideranças negras é menos ideológica e menos estratégica sob a enorme pressão do contexto centrista da Social - democracia que convive passivamente com o regime capitalista impossibilitando mudanças estruturais e garantindo a concentração de renda pela elite econômica.   

Essa tendência populista negra é uma armadilha de reprodução desse sistema que não pode se desenvolver de maneira desenfreada sem que os principais protagonistas contemporâneos sejam alertados para um comprometimento maior com um projeto estratégico articulado para a construção de uma

 “Nação Democrática Participativa, Popular e Multirracial sem Qualquer tipo de Preconceito”.

“Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil”, 1999, do antropólogo Kabengele Munanga, analisa sobre a força contemporânea da ideologia do branqueamento pensado pela elite brasileira entre o final do século XIX e início do século XX sobre dificuldades e contradições de entendermos várias armadilhas colocadas entre o debate de identidade nacional versus identidade negra.

Na senioridade, etapa importante na política, ainda existe a visão de inutilidade deflagrada nas Revoluções Industriais quando os trabalhadores idosos eram totalmente descartados em busca de mais produtividade, propiciando o aumento da exploração geracional da classe trabalhadora; bem como a exploração do trabalho infantil e das mulheres no mercado de trabalho.

A história é uma base sólida ou vulnerável de uma nação, sem a consolidação contínua da nossa história entre diferentes períodos e gerações não alcançaremos nem mesmo o olhar civilizacional da ancestralidade africana. 

Nos antigos, mais velhos, povos originários, comunidades tradicionais, Candomblé, Batuque, Umbanda; em tudo está o saber dos idosos.

Os professores envelhecem e ficam mais sábios, o etarismo destrói a oralidade, o saber das benzedeiras, rendeiras, quebradeiras de coco, pescadores artesanais, andirobeiras, caatingueiros, caiçaras, quilombolas, ribeirinhos, xamãs.

O etarismo interfere na cultura e educação popular; na capoeira, afoxés, maracatus e carnaval.

Os grileiros e garimpeiros ilegais matam as lideranças mais experientes dos movimentos sociais e indigenistas. Contudo, o etarismo não pode enfraquecer o respeito aos mestres e griôs, a importância histórica dos movimentos sociais e a luta de libertação do povo negro. Zumbi e Dandara vivem!

 

EMIR SILVA.  ARTIGO POPULAR DE MOVIMENTO SOCIAL.

EXECUTINA NACIONAL DA ANLU- A NOSSA LUTA UNIFICADA.

CAMPO DE REFLEXÃO, ANÁLISE E ARTICULAÇÃO POLÍTICA DO MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO-MNU.

PORTO ALEGRE-RS, 7 DE ABRIL DE 2023.