sábado, 8 de abril de 2023

ETARISMO E POPULISMO NEGRO

 

ARTIGO POPULAR DE MOVIMENTO SOCIAL.

 

UMA CONVERSA SOBRE ETARISMO UMA NOVA RAIZ QUE FORTALECE O POPULISMO NEGRO.

 

O etarismo, ageísmo, idadismo ou etaísmo são  preconceitos de aversão a idade que também podem discriminar os jovens, porém a exclusão dos mais velhos é mais relevante; no movimento negro é uma tendência vigente, ou seja, uma violência, as vezes desapercebida, mas acionada por vários mecanismos elencados pela máquina capitalista que  descarrega energia, ameniza o discurso, enfraquece a coletividade e desarticula os conceitos e discursos primordiais de consciência negra; é uma bomba negacionista jogada nas mãos de alguns ativistas contemporâneos que não enxergam ou não conhecem a origem da luta do Black Panthers, Malcolm X e dos movimentos de libertação do continente africano.


 


Nesta primeira edição apresentamos “O Artigo Popular de Movimento Social”, uma iniciativa descritiva e analítica sobre experiências da vida política através da oralidade dos indivíduos que convivem ou conviveram com temas evidenciados no dia a dia sobre assuntos relacionados as relações raciais integradas ao processo histórico de resistência negra e invisibilizados pelo sistema racista e capitalista.

Quarta-feira, 05 de abril de 2023, eu e Carmem Maia, minha companheira, dirigente nacional da ANLU- A Nossa Luta Unificada, fomos ao centro de Porto Alegre e percebemos um centro histórico eminentemente negro numa circulação populacional de trabalhadoras, trabalhadores e transeuntes com outros afazeres que percorriam trajetos e lugares construídos em grande parte pela população negra, espaço central de encontros que faz girar a tradição, a cultura, o comércio e a passagem na vida da cidade.

Quando chegamos no Mercado Público uma velha guarda do samba aglutinou muitas pessoas que estavam entre as compras na tradicional Feira do Peixe e a entrada principal do Mercado, aliás, ali em frente está o marco inicial do Museu do Percurso Negro, trajeto no centro da cidade que visita lugares e símbolos materiais e imateriais da resistência afro-gaúcha até então invisibilizada na memória da cidade.

Lembrei logo da ancestralidade “in memória” de Mãe Norinha de Oxalá, Nação Oyó, Mãe Maria de Oxum, filha da Mãe Menininha do Gantois, ali, no espaço sagrado do Bará do Mercado onde a grande irmã-companheira Iyá Vera Soares dá continuidade, no centro do Mercado, aos rituais sagrados desse assentamento primordial ao Batuque do Rio Grande do Sul que cultua essa divindade que abre caminhos sendo a guardiã das casas, cidades e representando o trabalho e a fartura.

Fomos encontrar o companheiro Dilmair Monte, militante de 70 anos, ferroviário, fundador do Partido dos Trabalhadores, PT, Central Única dos Trabalhadores, CUT, e Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira, CENARAB, sem dúvida um ativista de reconhecida trajetória no movimento negro brasileiro.

Conheci o Dilmair em Salvador, Bahia, lá por 1986 ou 87, na época que morei na capital baiana; lembro que nos encontramos na sede da CUT da Bahia, e tínhamos uma relação política comum na CUT Pela Base, campo do movimento sindical.

 Conosco estavam Antônio Matos, membro do MNU, fundador do PT, liderança comunitária com trajetória na construção e gestão do Orçamento Participativo, OP, e Felipe Oliveira, ativista do movimento negro da campanha gaúcha, Bagé, liderança nacional da luta antifascista e coordenador estadual do Movimento Negro Unificado.

 Conversamos no Café da companheira Iara Rufino, afroempreendedora que há décadas se consolidou como nossa referência no Mercado Público pelo seu trabalho e competência.

Naquela mesa, pelo menos tinha 300 anos de história, na verdade passou um pouquinho; foi literalmente uma tarde de troca de experiências!

Um dos assuntos que tratamos foi sobre o etarismo na política e o populismo efervescente no movimento negro como fenômenos que se enraizaram, a cada dia, interagindo concomitantemente na arena neoliberal onde a população negra acionada pelo discurso contra o racismo não percebe a predominância de ações diretamente relacionadas ao individualismo liberal.

 É óbvio que a luta contra o bolsonarismo é fundamental para combater o racismo, o sexismo e qualquer tipo de intolerância, esse enfrentamento vem fortalecendo e construindo novas lideranças que resistem as agruras do capitalismo e de suas próprias instituições segregadoras.

Esse contexto social contemporâneo é complexo de analisar por que a nova geração de ativistas é comprometida e responsável, porém essa época de eclosão tecnológica virtual transformou o comportamento dos indivíduos e da própria política; as redes sociais são arenas perigosas, de manipulações e distorções do discurso político; além das fake news, cookies espiões e controle dos dados pessoais para alta monetização das corporações multinacionais.

Ambiente muito diferente do “velho” trabalho de base, formação política e organização da resistência popular. Princípio fundamental de movimento negro.  

De maneira simples e objetiva podemos dizer que outrora os militantes do movimento negro tinham que passar a vida toda formulando ideias, legislações e políticas públicas a partir das organizações do movimento social negro; combatendo o racismo, pressionando o Estado e explicando ao poder público as necessidades de políticas sociais antidiscriminatórias através de constante mobilização.

 O processo histórico construído pelo “antigo” movimento negro organizado deflagrou a conquista ao acesso às cotas, a universidade, a política, aos partidos, ao arcabouço legislativo de combate ao racismo e, principalmente, ao ambiente social em que as instituições governamentais, legislativas, judiciárias, bem como a grande mídia (obrigada a reconhecer o racismo estrutural) solidificaram um caminho alicerçado no mecanismo social contemporâneo aos ativistas das novas gerações.

Além disto, o movimento negro também mudou, aumentando sua vulnerabilidade para o carreirismo de ascensão social e econômica porque a falta de formação política e o comportamento das redes sociais com forte viés liberal adentrou aleatoriamente as próprias organizações tradicionais através da postura de indivíduos equivocados que oscilam em diferentes ações contraditórias entre a luta contra o racismo e a centralidade no fisiologismo e assistencialismo; esses indivíduos trocam várias vezes de lugar político, não diferindo as relações com instituições, organizações ou partidos da direita neoliberal que oprimem as mulheres negras,  quilombolas e povos originários.

 A necessidade da retomada do debate político estratégico do movimento negro organizado é premente antes que a direita e o mercado financeiro transformem as ações afirmativas em créditos, como os créditos de carbono, por exemplo.

 A monetização da luta contra o racismo como forma lucrativa de rendimento financeiro está relacionada a realidade de cada país que implementa os princípios do Estado mínimo apresentados no Consenso de Washington, em 1989, que se tornou o manual do neoliberalismo, caso da economia brasileira.   

 Na Era dos robôs, o que eles responderiam sobre o racismo?

Reconheceriam o processo histórico do “velho” movimento negro?

O fato é que o domínio tecnológico induz os indivíduos a perpassarem virtualmente qualquer tema, instituição ou investimento, a população está totalmente integrada ao domínio das redes sociais e sua manipulação psicológica retratada no filme, “O Dilema das Redes”, 2020, direção Jeff Orlowski, inclusive, atualmente os cientistas estão preocupados sobre o avanço descontrolado da inteligência artificial como o chatGPT.

Nesse campo mais virtual do que territorial, diversificados segmentos disputam o mesmo espaço entre youtubers, outsiders, celebridades, influenciadores, artistas, tendências partidárias dirigidas na maioria por homens brancos e Organizações do Terceiro Setor entre Ongs e entidades filantrópicas que se multiplicaram amplamente.

Por outro lado, o movimento social negro histórico representado pelas organizações reconhecidas da esquerda negra brasileira balizaram a resistência desde a ditadura militar,  há 45 anos,  propondo agendas a partir do Projeto Político do Ponto de Vista do Povo Negro e Reparações ( resoluções do Movimento Negro Unificado-MNU)  como políticas permanentes de Estado com garantias orçamentárias investidas na maioria negra e pobre da população brasileira; disputar o orçamento para investimento em territórios negros é fundamental.  

Estamos num dilema de linhas distintas, as ONGS  priorizaram as relações com o mercado liberal entre bancos e multinacionais – como no caso do Carrefour, por exemplo, onde houve uma intervenção de ongueiros que impediram a continuidade da mobilização popular, inclusive à nível mundial desmobilizando articulações de lutas contra o Carrefour em vários países- quando buscaram indenizações milionárias para si enquanto um negro foi assassinado, esses especuladores se alinham fortemente às compensações do neoliberalismo.  

A idade do movimento negro organizado após a ditadura militar é quase cinquentenária, são 45 anos desde a fundação do Movimento Negro Unificado – MNU -, em 1978, meio século de trabalho físico e mental sem a possibilidade de estrutura ou tecnologia social para colher a grande plantação que cultivou durante décadas; esse espaço político do discurso racial tornou-se amplo e vulnerável a vários segmentos sociais, tecnocratas, e instituições de Estado.

O processo de burocratização da questão racial suprimiu ardilosamente a importância das organizações do movimento social negro, ou seja, o discurso que não interessa pela suposta “radicalidade” ou “divisionismo social”, porém ficou explícita a disputa de poder e liderança política sobre a população negra.

O monopólio midiático, o pensamento eurocêntrico acadêmico e a política tradicional disputam a base social negra, seja, intelectualmente ou eleitoralmente onde partidos, instituições públicas e privadas reproduzem o protagonismo retórico positivista sobre a população negra com interesse arcaico de organização social e segmento consumista na economia de mercado.

Nesse sistema de disputa liderado por homens brancos que negociam o “Establishment” – Grupo sociopolítico que exerce a ordem, privilégios e poder - a renovação de lideranças negras é menos ideológica e menos estratégica sob a enorme pressão do contexto centrista da Social - democracia que convive passivamente com o regime capitalista impossibilitando mudanças estruturais e garantindo a concentração de renda pela elite econômica.   

Essa tendência populista negra é uma armadilha de reprodução desse sistema que não pode se desenvolver de maneira desenfreada sem que os principais protagonistas contemporâneos sejam alertados para um comprometimento maior com um projeto estratégico articulado para a construção de uma

 “Nação Democrática Participativa, Popular e Multirracial sem Qualquer tipo de Preconceito”.

“Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil”, 1999, do antropólogo Kabengele Munanga, analisa sobre a força contemporânea da ideologia do branqueamento pensado pela elite brasileira entre o final do século XIX e início do século XX sobre dificuldades e contradições de entendermos várias armadilhas colocadas entre o debate de identidade nacional versus identidade negra.

Na senioridade, etapa importante na política, ainda existe a visão de inutilidade deflagrada nas Revoluções Industriais quando os trabalhadores idosos eram totalmente descartados em busca de mais produtividade, propiciando o aumento da exploração geracional da classe trabalhadora; bem como a exploração do trabalho infantil e das mulheres no mercado de trabalho.

A história é uma base sólida ou vulnerável de uma nação, sem a consolidação contínua da nossa história entre diferentes períodos e gerações não alcançaremos nem mesmo o olhar civilizacional da ancestralidade africana. 

Nos antigos, mais velhos, povos originários, comunidades tradicionais, Candomblé, Batuque, Umbanda; em tudo está o saber dos idosos.

Os professores envelhecem e ficam mais sábios, o etarismo destrói a oralidade, o saber das benzedeiras, rendeiras, quebradeiras de coco, pescadores artesanais, andirobeiras, caatingueiros, caiçaras, quilombolas, ribeirinhos, xamãs.

O etarismo interfere na cultura e educação popular; na capoeira, afoxés, maracatus e carnaval.

Os grileiros e garimpeiros ilegais matam as lideranças mais experientes dos movimentos sociais e indigenistas. Contudo, o etarismo não pode enfraquecer o respeito aos mestres e griôs, a importância histórica dos movimentos sociais e a luta de libertação do povo negro. Zumbi e Dandara vivem!

 

EMIR SILVA.  ARTIGO POPULAR DE MOVIMENTO SOCIAL.

EXECUTINA NACIONAL DA ANLU- A NOSSA LUTA UNIFICADA.

CAMPO DE REFLEXÃO, ANÁLISE E ARTICULAÇÃO POLÍTICA DO MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO-MNU.

PORTO ALEGRE-RS, 7 DE ABRIL DE 2023.

Um comentário:

  1. Artigo preciso e denso, nenhuma surpresa, pois elaborado por um grande companheiro lutador e teórico da luta negra brasileira.

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