quinta-feira, 19 de julho de 2018

O PRECEITO DE SACRALIZAÇÃO E A VOTAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE NO STF.


    Uma saudação à memória de Mãe Norinha de Oxalá e Mãe Maria de Oxum  que nos fortaleceram na continuidade da luta.


Por Emir Silva.
Comitê Internacional de Reparação e MNU-RS.


  A maior mobilização contra a intolerância religiosa na América Latina no século XXI aconteceu em Porto Alegre, no início da década de 2000. Neopentecostais pressionaram terreiros de religião africana para acabarem com  o preceito de “sacralização”  baseado no Código Estadual de Proteção aos Animais. A principal liderança africanista que levantou a bandeira da denúncia foi, Mãe Norinha de Oxalá, falecida em  maio de 2018, essa grande  senhora articulou sabiamente a integração de entidades, lideranças políticas e instituições dos poderes: executivo,  legislativo e judiciário. Esse movimento originou a criação da Congregação em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras, CEDRAB, articulada a partir do Grupo de Trabalho de Matriz Africana do Movimento Negro Unificado, MNU. Esse núcleo reuniu outra saudosa liderança do Candomblé gaúcho  que nos deixou em fevereiro, Mãe Maria de Oxum, uma antiga filiada do MNU desde a década de 80; seu filho, Jorge Guedes, organizava anualmente na “Mariano de Matos” grandes festas públicas da nossa organização que reunia em média 5 mil pessoas. São essas lideranças irradiantes que não estão mais conosco, mas ocuparam a linha de frente de uma luta que mobilizou milhares de pessoas. Essa troca de energia ancestral garante que estamos prontos para mais uma batalha. Dia nove de agosto vota-se no STF a inconstitucionalidade da Lei 12.131. Salve elas. Àsé !
     Em maio de 2003, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou, por unanimidade, o Código Estadual de Proteção aos Animais, Lei nº 11.915-03. O documento foi considerado um avanço na legislação ambiental do país e teve o objetivo  de estabelecer normas para a proteção dos animais, visando compatibilizar o desenvolvimento socioeconômico com  preservação ambiental . Após aprovada, a lei se constituiu num instrumento de pressão usado por fiéis de igrejas neopentecostais  que exigiram  às autoridades policiais o fechamento de casas de religião de matriz africana, baseando-se no artigo 2º. Estava colocado um grande dilema, os cultos e preceitos africanos são oriundos de civilizações antigas, inclusive, antes da constituição do direito greco-romano. A relação dos africanos com as terras, plantas, rios, florestas e animais sempre foi sagrada. Na época da Lei, alguns grupos de ambientalistas se aliaram às igrejas evangélicas e relacionaram os cultos africanos ao abate de gatos, cachorros, e seres humanos; se manifestavam com seus animais no colo  em defesa de suas próprias vidas em frente ao Palácio Piratini em  apoio ao autor do projeto, deputado estadual Manoel Maria, (PTB).  


O artigo 2º da referida lei diz que é vedado:
I - ofender ou agredir fisicamente os animais, sujeitando-os a qualquer tipo de experiência capaz de causar sofrimento ou dano, bem como as que criem condições inaceitáveis de existência:
II – manter animais em local completamente desprovido de asseio ou que lhes impeçam a movimentação, o descanso ou os privem de ar e luminosidade;
III – obrigar animais a trabalhos exorbitantes ou que ultrapassem sua força;
IV – não dar morte rápida e indolor a todo animal cujo extermínio seja necessário para o consumo;
V – exercer a venda ambulante de animais para menores desacompanhados por responsável legal;
VI – enclausurar animais com outros que os molestem ou aterrorizem;
VII – sacrificar animais com venenos ou outros métodos não preconizados pela Organização Mundial da Saúde – OMS – nos programas de profilaxia e raiva.
   Batuqueiros foram ameaçados, casas de santo fechadas, e várias denúncias ao Corpo de Bombeiros acionadas para impedir o rufar dos tambores e o culto aos Orixás. Lideranças africanistas se articularam com o poder público buscando alternativas para reestabelecer a dinâmica cotidiana de suas crenças e rituais.  Ialorixás e Babalorixás fizeram denúncias sobre as perseguições e agressões, e trouxeram á tona um ponto de vista de sociedade que é contra hegemônico aos valores judaicos cristãos.   O debate transcorreu em várias instâncias, comissões de direitos humanos e constituição de justiça da Assembleia Legislativa, Ministério Público Estadual, audiências públicas, seminários e grandes manifestações públicas. O RS é a maior região de terreiros do país.
  A Constituição Federal foi acionada por juristas renomados e o debate  alastrou-se  com a cobertura da imprensa nacional  e manifestações africanistas em todo Brasil. Essas mobilizações exerceram pressões em  gestores públicos e determinaram uma nova agenda entre os poderes: legislativo, executivo e judiciário.  O contexto social era propício para a polarização de ideias; em 2001, a ONU tinha realizado a III Conferência Contra o Racismo, Xenofobia, Intolerância Correlatas, em Durban, África do Sul. Havia um contraponto demarcado entre liberais e a esquerda mundial com as realizações paralelas do Fórum Econômico de Davos, na Suíça e o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Intelectuais de vários países trafegavam pela capital gaúcha em busca de conhecimento sobre o Orçamento Participativo e seu impacto na efetivação de políticas públicas a partir da participação política popular.  Em junho de 2004, foi aprovada a Lei nº, 12.131, por 32 votos favoráveis e dois contra, a emenda foi apresentada pelo deputado estadual, Edson Portilho, PT, e membro do MNU – Movimento Negro Unificado, inserida través de parágrafo único:  não se enquadra nessa vedação o livre exercício dos cultos e liturgias das religiões de matriz africana.  Em julho a emenda foi sancionada pelo governo estadual, Decreto 43. 252.  Numa reação dos neopentecostais e ambientalistas houve um pedido de Ação Direta  de Inconstitucionalidade (ADIN) acatado pela Procuradoria Geral de Justiça. Em abril de 2005 terminava o primeiro período  de conflitos entre adeptos de crenças milenares,  protetores dos animais e evangélicos. Ficou evidente que vários interesses e concepções conflitantes estavam entre os grupos  que interagiam  entre si uma correlação de força  desproporcional ás garantias do Estado laico. A polêmica estava sob a ótica divergente de diferentes concepções religiosas, políticas e divisões entre diferentes grupos de defesa dos animais.
  Os africanistas foram satanizados e tratados como primitivos, assassinos que cultuavam demônios e faziam trabalhos para deixarem as pessoas doentes, pesteadas, pobres e desempregadas.  Um princípio semelhante aos europeus civilizadores, jesuítas catequizadores, como uma Cruzada contemporânea politizada no sul do país de colonização ítalo-germânica.  Gatos e cachorros foram usados como vítimas de uma suposta carnificina pública proferida por pessoas ignorantes que  atentavam contra o direito às famílias terem seus animais com segurança. O fato é que a mídia gaúcha repercutiu tanto o assunto que  um programa de televisão de transmissão nacional abordou  o tema promovendo um debate com um Babalorixá,  o parlamentar autor da emenda  e uma pessoa contra os africanistas;  exibiram, durante a conversa, reportagens que denunciavam   maus-tratos à gatos e cachorros: Luciana Gimenez, Rede TV.
   Os pastores neopentecostais começaram a pregar com mais ênfase a demonização dos feiticeiros, denunciando a contaminação das ruas através da   sujeira pública  que eram   suas oferendas.   Por trás dessa polêmica, havia o interesse de grandes  corporações religiosas, como a Igreja Universal do Reino de Deus que possui um  monopólio  da fé com bancadas parlamentares nas três esferas. Essa organização tem o domínio de redes de rádio e televisão, poder econômico financiado pela base popular de fiéis sendo um dos maiores aparatos  de poder político no Brasil organizado em vários países do Mundo.
  Sem dúvida, houve uma vitória do movimento social negro e africanista  que promoveram uma agenda positiva de ativismo político a partir da filosofia africana. Esse protagonismo fortaleceu  grandes eventos e  caminhadas pelo país que até então não existiam, essas datas são celebradas até hoje.  Os debates conceituais e teóricos sobre o tema pautaram o meio acadêmico, teses foram publicadas e livros editados.  O governo federal realizou Conferências de Promoção da Igualdade Racial garantindo os temas relacionados aos Povos Tradicionais. Departamentos para políticas públicas específicas foram criados em órgãos governamentais.   
  Por outro lado, veio á tona a história de diversas religiões que proferiram cultos tendo como elos  ritualísticos  a relação entre o trato da  terra, animais, mata, água, alimentação,  corpo e mente que eclodem numa  sintonia entre elementos que energizam   manifestações de diferentes espiritualidades  e incorporações de divindades ancestrais cultuadas em diferentes povos.  A tradição do churrasco gaúcho também foi tema de debate, foram abordados  argumentos sobre  o grande consumo de carnes pela população sulina que desconhecia a crueldade no processamento de abates de aves, bovinos e suínos. As receitas do molho pardo com sangue da galinha, morcela com sangue e gordura animal de porco geraram uma nova interpretação popular. A tradição da Farra do Boi, em Santa Catarina, foi um exemplo de contestação, bem como as rinhas de galo.    
  Estudiosos africanistas pesquisaram sobre antigas crenças, trazendo conteúdos desconhecidos da maioria dos envolvidos que  acusavam, legislavam e decidiam. Por exemplo, sobre o oráculo de Delfos que os gregos consultavam para decidir sobre seus caminhos; o deus Apolo se manifestava  através de uma mulher, a pífia,  que de rosto coberto entrava em transe em meio á fumaças vermelhas em uma gruta.  Sócrates tinha sido acusado de blasfêmia e seria julgado pela Assembleia, seus discípulos foram à Delfos e quando chegaram, foram interpelados pelo sacerdote guardião que indagou: o que querem?   - Queremos saber de Apolo por que querem a morte de Sócrates. Vocês trouxeram a cabra para o sacrifício?  -Sim. A pífia começou o ritual e disse  que Sócrates não seria morto e que deveriam lembrá-lo de trazer um galo ao oráculo.   
  O sacrifício Cristão, segundo os escritos de Justino Mártir, “tentando convencer a Tristão do cumprimento das Escrituras em Cristo:“ o mistério do cordeiro que Deus mandou sacrificar como Páscoa era figura de Cristo, com cujo sangue o que neles creem, segundo a fé nele, ungem suas casas, isto é, a si mesmo”. Semelhante, os dois bodes (Levíticos 16,5-10) que se mandavam sacrificar no jejum são interpretados como figuras das duas vindas de Cristo (Alessandro Arzani, 2011). A Roma Antiga tinha culto público e privado de sacrifício de pessoas e animais; bois, cavalos e porcos. O sacrificante imolava passando a faca da  cabeça á cauda, o fígado, pulmão e coração eram ofertados aos deuses, o resto da carne era consumida. No Zoroastrismo havia sacrifício de animais, menos bovídeos.  Na mitologia indo- persa, no Mitraísmo,  o boi foi o primeiro habitante da terra e ao ser morto por Mitra deixou todo o gênero de alimentos que surgiram, sua alma foi  para o paraíso depois de ter vivido 300 anos.
  O sacrifício de animais em cultos religiosos acontece tanto nas religiões de matriz africana cultuadas no Brasil  quanto no Ramadã, onde os mulçumanos degolam um cordeiro, há na Bíblia Sagrada várias alusões á sacrifícios de animais na Era Cristã.  No Candomblé há uma troca de energia entre o fiel com acúmulo de energias negativas e o animal que faz a transposição destas, outra possibilidade é o animal ser oferecido aos Orixás. Nas celebrações a carne é comida, nada vai fora.
Nos EUA, em 1992, a Suprema Corte votou o caso Church of Lukumi Balalu Aye versus City of Hialeah.  As leis locais proibiam veementemente  o sacrifício de animais, ritual que era adotado nessa Congregação Religiosa da confissão da “Santería”, culto afro cubano, a Suprema Corte decidiu a favor dos rituais.
 
O filósofo Fernandes Portual, Universidade de Havanna, em entrevista transcrita no artigo de, Yannick Yves Andrade Robert, diz que o sacrifício  é um dogma da cultura Yorubá e o Candomblé não existiria sem o sacrifício.  Em 2015, a deputada estadual, Regina Becker Fortunati, Rede, apresenta o PL 21-15  que legisla sobre o mesmo tema:  proibição do sacrifício de animais em religiões de matriz africana,  foi derrotada,   aconteceram grandes mobilizações de africanistas.
 Lideranças do MNU que já tinham sido protagonistas da primeira batalha estiveram na linha de frente: Iyá Vera Soares, Mãe Norinha, Mãe Angélica, Mãe Carmem de Holanda, Baba Dyba , Edson Portilho, entre outras organizações. No próximo dia nove de agosto, em Brasília, o Supremo Tribunal Federal, STF, votará o pedido de inconstitucionalidade da  emenda 12.131-04, do então deputado Edson Portilho. Já está em cursos novas mobilizações dos religiosos de  matriz africana para acompanharem o julgamento.
  A disputa entre grupos de interesses, corporações religiosas, movimentos sociais e partidos políticos demonstraram que acima de qualquer tradição está o pragmatismo da correlação de força entre grandes instituições em busca de poder e hegemonia. A sociedade está em disputa acirrada, seja por visões políticas, econômicas ou de afirmação de conceitos idealizados por cada grupo como balizadores próprios de como serão impostas as relações de valores para classificação entre o ser humano e desumano, maus tratos e proteção, atrasados e civilizados.  Nesse contexto, os resultados concretos aos africanistas que outrora eram vitoriosos, no segundo semestre de 2018, estarão sob um novo julgamento. Será o julgamento de várias Nações Africanas que carregam a ancestralidade. Enquanto isto, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, aparelha a administração municipal com benefícios públicos à Igreja Universal do Reino de Deus.         
  



domingo, 8 de julho de 2018

FELIZ ANIVERSÁRIO AO MNU - MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO, 1978-2018 !


40 anos do MNU- Movimento Negro Unificado. 1978-2018.

Território de Resistência  Negra,  Oralidades  Tradicionais e Luta de Classes.

Por,  Emir Silva.  Comitê Internacional de Reparação e Membro do MNU.


   A organização matriarca do movimento negro brasileiro continua viva, não está depressiva  e observa  com o braço direito levantado e punho cerrado uma das maiores crises políticas da história do Brasil. Não estamos só olhando, mas fazendo o que sempre fizemos, nunca paramos de lutar, até parece que esses magnatas apareceram só agora, eles sempre assolaram o povo negro, indígenas e pobres. O  MNU  mantém o que sempre fez ,  trabalhar cotidianamente para construir um projeto político nacional  do ponto de vista do povo negro,  que seja fortalecido e integrado por outros segmentos multirraciais  do campo democrático e popular. Não fomos embebecidos com a ilusão de sermos protagonistas de qualquer processo político se organizando no Terceiro Setor, nem ocupando espaços institucionais imediatistas para a própria sobrevivência.  Quem não tiver o discernimento  que as ONG`S  são partes funcionais da terceirização precária das responsabilidades governamentais, como parte do modelo neoliberal, não consegue compreender que políticas voluntaristas paliativas não são estruturantes e que  o papel do Estado  não pode ser substituído nas  bases populares; a não ser conscientizando e organizando politicamente as comunidades.
   O MNU se afirmou como organização política negra, autônoma, independente e com forte viés pan-africanista, entre outros campos teóricos. Somos um terreiro da resistência negra de ação contra hegemônica ao capitalismo. O MNU carrega uma essência de oralidade ancestral que fortalece seus militantes a romperem com o cativeiro intelectual e não se rebaixarem  ao centralismo das  organizações  eurocêntricas que usurpam cotidianamente os ativistas negros e negras.  O movimento negro liberal, integracionista, utilitarista também é diferente do MNU.  Artistas negros Globais, alguns são muito bons,  mas diferentes do MNU. Quem age individualmente perambulando somente em busca de ascensão política e profissional é diferente do MNU. Trazemos a utopia da unidade organizacional dos quilombos, pensamos questões estratégicas e analisamos a conjuntura nacional e internacional para aprimorar nosso posicionamento político coletivo sem vacilar, errar num processo político compromete e pode não ter mais volta em reativar ações para desafios posteriores.
   Por isto o MNU ainda está aí, boa parte de quem forma opinião não gosta do nosso discurso, incomoda, mexe com as zonas de conforto  de quem não admite o racismo como centralidade das desigualdades no Brasil  e releva o problema racial  ás questões de divisão de classe social. Isto sempre dependerá de onde as pessoas se colocam na sociedade, como foram formadas, o que aprenderam  e quais suas referências intelectuais e visão de vida.
   Considero que a diversidade do movimento negro brasileiro com suas características fragmentadas e temporais, cada um da sua forma,  teve papel fundamental nas conquistas que obtivemos até agora desde a redemocratização.    Sempre denunciamos que existia uma elite cafona com poder econômico, aspirações eurocêntricas e versões bregas nazifascistas. O sonho de ser americano ou europeu permeou grande parte das metas da classe  média  brasileira. A base conceitual de nossas instituições e intelectuais é basicamente reproduzir o conhecimento científico e valores dos países imperialistas e neocolonialistas.
   Parece que não se quer uma Nação também negra, se quer um país que seja quintal do mundo, com anfitriões, homens   brancos, se apresentando periodicamente  para negociar seu próprio bem estar com estrangeiros; governos, multinacionais, universidades, capital especulativo e crime internacional  organizado. Nesse contexto podemos entender  porque há tanta  defesa da mestiçagem, o mito da democracia racial está cada vez mais vivo, os negativistas atacam o movimento negro, o desdém também está no  silêncio diário da população aos assassinatos de crianças e jovens afrodescendentes,  a cada 27 minutos. O silêncio homologa as mortes.  É muito difícil ouvir no Brasil,  literalmente: ”o nosso país é racista”. As pessoas acham que não há, só quando alguém sofre algo, daí pode ser, ou quando a mídia promove, rola um debate. Estamos na segunda maior nação negra do mundo, 208 milhões de habitantes, 54% de afrodescendentes. O custo de exterminar o povo negro é menor, é uma limpeza étnica para resolver problemas sociais que nunca priorizaram  resolver.
   O marco da Constituição Federal, em 1988, que deflagrou a redemocratização e também acionou o sonho de que a política representativa nesse sistema desigual seria o caminho perfeito para alcançar a igualdade social, naufragou. Talvez não tenham lembrado que, em 1989, o Consenso de Washington tinha deliberado a diminuição do Estado e privatizações  do serviço público. Agora, estamos nas mãos de instituições  lideradas por tecnocratas reacionários do poder judiciário que alçaram  posição decisória no espaço público através da   meritocracia; ocuparam espaço no vácuo da crise e agem remediando as transgressões dos grupos de interesses da elite econômica. O pragmatismo de coligações eleitorais e composições de governabilidade misturaram a vanguarda revolucionária com o coronelismo regional. Parecia que o sonho estava tornando-se realidade, empresários do agronegócio, empreiteiras, grandes indústrias, monopólios de comunicação, esquerda e centro-direita, todos juntos para um Brasil melhor. Não tinha como funcionar, parecia a música do Cazuza: “Brasil, mostra a tua cara...’’ O golpe do Governo Temer  é resultante desses múltiplos responsáveis.  Dos treze milhões de desempregados,  quase  dez são negras e negros. Sobrou pra quem...
   O Estado Republicano de Direito está tonto, bêbado, sem rumos definidos, o país das personalidades e personalismos ruiu entre a corrupção e o populismo.  É inegável que nos governos Lula e Dilma as políticas públicas específicas para população negra avançaram consideravelmente, porém a titulação das terras quilombolas que faz  contraponto ao grande latifúndio acabou estagnada.   O MNU está em pé porque manteve uma postura coerente com suas convicções e deliberações  congressuais. Em 2019 chegaremos ao XIX Congresso Nacional, são quatro décadas de lutas, essa organização formou gerações, é a Universidade de Base Negra do Brasil, sem fazer vestibular, sem bater continência pra chefe de corrente, aqui  sempre debatemos as  principais obras clássicas da filosofia e ciências políticas de viés  eurocêntrico  através do contraponto  produzido pelos maiores filósofos e intelectuais pan-africanistas. Como dizia um velho militante: “malandro sabe que pra vir pra cá, tem que romper  com o lado de lá...
 Sonhar é preciso, lutar necessário, vida longa ao MNU! 

Porto Alegre, 07 de Julho de 2018.