ARTIGO POPULAR DE MOVIMENTO SOCIAL.
UMA CONVERSA SOBRE ETARISMO UMA NOVA RAIZ QUE FORTALECE O
POPULISMO NEGRO.
O etarismo, ageísmo, idadismo ou etaísmo são preconceitos de aversão a idade que também
podem discriminar os jovens, porém a exclusão dos mais velhos é mais relevante;
no movimento negro é uma tendência vigente, ou seja, uma violência, as vezes
desapercebida, mas acionada por vários mecanismos elencados pela máquina
capitalista que descarrega energia,
ameniza o discurso, enfraquece a coletividade e desarticula os conceitos e
discursos primordiais de consciência negra; é uma bomba negacionista jogada nas
mãos de alguns ativistas contemporâneos que não enxergam ou não conhecem a
origem da luta do Black Panthers, Malcolm X e dos movimentos de libertação do
continente africano.
Nesta
primeira edição apresentamos “O Artigo Popular de Movimento Social”, uma
iniciativa descritiva e analítica sobre experiências da vida política através
da oralidade dos indivíduos que convivem ou conviveram com temas evidenciados
no dia a dia sobre assuntos relacionados as relações raciais integradas ao
processo histórico de resistência negra e invisibilizados pelo sistema racista
e capitalista.
Quarta-feira,
05 de abril de 2023, eu e Carmem Maia, minha companheira, dirigente nacional da ANLU- A Nossa Luta Unificada, fomos ao centro de Porto Alegre e percebemos um
centro histórico eminentemente negro numa circulação populacional de
trabalhadoras, trabalhadores e transeuntes com outros afazeres que percorriam
trajetos e lugares construídos em grande parte pela população negra, espaço
central de encontros que faz girar a tradição, a cultura, o comércio e a
passagem na vida da cidade.
Quando
chegamos no Mercado Público uma velha guarda do samba aglutinou muitas pessoas
que estavam entre as compras na tradicional Feira do Peixe e a entrada
principal do Mercado, aliás, ali em frente está o marco inicial do Museu do
Percurso Negro, trajeto no centro da cidade que visita lugares e símbolos
materiais e imateriais da resistência afro-gaúcha até então invisibilizada na
memória da cidade.
Lembrei
logo da ancestralidade “in memória” de Mãe Norinha de Oxalá, Nação Oyó, Mãe
Maria de Oxum, filha da Mãe Menininha do Gantois, ali, no espaço sagrado do
Bará do Mercado onde a grande irmã-companheira Iyá Vera Soares dá continuidade,
no centro do Mercado, aos rituais sagrados desse assentamento primordial ao
Batuque do Rio Grande do Sul que cultua essa divindade que abre caminhos sendo a
guardiã das casas, cidades e representando o trabalho e a fartura.
Fomos
encontrar o companheiro Dilmair Monte, militante de 70 anos, ferroviário,
fundador do Partido dos Trabalhadores, PT, Central Única dos Trabalhadores, CUT,
e Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira, CENARAB, sem
dúvida um ativista de reconhecida trajetória no movimento negro brasileiro.
Conheci
o Dilmair em Salvador, Bahia, lá por 1986 ou 87, na época que morei na capital
baiana; lembro que nos encontramos na sede da CUT da Bahia, e tínhamos uma
relação política comum na CUT Pela Base, campo do movimento sindical.
Conosco estavam Antônio Matos, membro do MNU,
fundador do PT, liderança comunitária com trajetória na construção e gestão do
Orçamento Participativo, OP, e Felipe Oliveira, ativista do movimento negro da
campanha gaúcha, Bagé, liderança nacional da luta antifascista e coordenador
estadual do Movimento Negro Unificado.
Conversamos no Café da companheira Iara
Rufino, afroempreendedora que há décadas se consolidou como nossa referência no
Mercado Público pelo seu trabalho e competência.
Naquela
mesa, pelo menos tinha 300 anos de história, na verdade passou um pouquinho;
foi literalmente uma tarde de troca de experiências!
Um dos
assuntos que tratamos foi sobre o etarismo na política e o populismo efervescente
no movimento negro como fenômenos que se enraizaram, a cada dia, interagindo
concomitantemente na arena neoliberal onde a população negra acionada pelo
discurso contra o racismo não percebe a predominância de ações diretamente
relacionadas ao individualismo liberal.
É óbvio que a luta contra o bolsonarismo é
fundamental para combater o racismo, o sexismo e qualquer tipo de intolerância,
esse enfrentamento vem fortalecendo e construindo novas lideranças que resistem
as agruras do capitalismo e de suas próprias instituições segregadoras.
Esse
contexto social contemporâneo é complexo de analisar por que a nova geração de
ativistas é comprometida e responsável, porém essa época de eclosão tecnológica
virtual transformou o comportamento dos indivíduos e da própria política; as
redes sociais são arenas perigosas, de manipulações e distorções do discurso
político; além das fake news, cookies espiões e controle dos dados pessoais
para alta monetização das corporações multinacionais.
Ambiente
muito diferente do “velho” trabalho de base, formação política e organização da
resistência popular. Princípio fundamental de movimento negro.
De
maneira simples e objetiva podemos dizer que outrora os militantes do movimento
negro tinham que passar a vida toda formulando ideias, legislações e políticas
públicas a partir das organizações do movimento social negro; combatendo o
racismo, pressionando o Estado e explicando ao poder público as necessidades de
políticas sociais antidiscriminatórias através de constante mobilização.
O processo histórico construído
pelo “antigo” movimento negro organizado deflagrou a conquista ao acesso às
cotas, a universidade, a política, aos partidos, ao arcabouço legislativo de
combate ao racismo e, principalmente, ao ambiente social em que as instituições
governamentais, legislativas, judiciárias, bem como a grande mídia (obrigada a
reconhecer o racismo estrutural) solidificaram um caminho alicerçado no
mecanismo social contemporâneo aos ativistas das novas gerações.
Além
disto, o movimento negro também mudou, aumentando sua vulnerabilidade para o
carreirismo de ascensão social e econômica porque a falta de formação política
e o comportamento das redes sociais com forte viés liberal adentrou
aleatoriamente as próprias organizações tradicionais através da postura de
indivíduos equivocados que oscilam em diferentes ações contraditórias entre a
luta contra o racismo e a centralidade no fisiologismo e assistencialismo;
esses indivíduos trocam várias vezes de lugar político, não diferindo as
relações com instituições, organizações ou partidos da direita neoliberal que
oprimem as mulheres negras, quilombolas
e povos originários.
A necessidade da retomada do debate político
estratégico do movimento negro organizado é premente antes que a direita e o
mercado financeiro transformem as ações afirmativas em créditos, como os
créditos de carbono, por exemplo.
A monetização da luta contra o racismo como
forma lucrativa de rendimento financeiro está relacionada a realidade de cada
país que implementa os princípios do Estado mínimo apresentados no
Consenso de Washington, em 1989, que se tornou o manual do neoliberalismo, caso
da economia brasileira.
Na Era dos robôs, o que eles responderiam
sobre o racismo?
Reconheceriam
o processo histórico do “velho” movimento negro?
O fato
é que o domínio tecnológico induz os indivíduos a perpassarem virtualmente
qualquer tema, instituição ou investimento, a população está totalmente
integrada ao domínio das redes sociais e sua manipulação psicológica retratada
no filme, “O Dilema das Redes”, 2020, direção Jeff Orlowski, inclusive,
atualmente os cientistas estão preocupados sobre o avanço descontrolado da
inteligência artificial como o chatGPT.
Nesse
campo mais virtual do que territorial, diversificados segmentos disputam o
mesmo espaço entre youtubers, outsiders, celebridades, influenciadores, artistas,
tendências partidárias dirigidas na maioria por homens brancos e Organizações
do Terceiro Setor entre Ongs e entidades filantrópicas que se multiplicaram
amplamente.
Por
outro lado, o movimento social negro histórico representado pelas organizações reconhecidas
da esquerda negra brasileira balizaram a resistência desde a ditadura
militar, há 45 anos, propondo agendas a partir do Projeto Político
do Ponto de Vista do Povo Negro e Reparações ( resoluções do Movimento Negro
Unificado-MNU) como políticas
permanentes de Estado com garantias orçamentárias investidas na maioria negra e
pobre da população brasileira; disputar o orçamento para investimento em
territórios negros é fundamental.
Estamos
num dilema de linhas distintas, as ONGS
priorizaram as relações com o mercado liberal entre bancos e
multinacionais – como no caso do Carrefour, por exemplo, onde houve uma
intervenção de ongueiros que impediram a continuidade da mobilização popular,
inclusive à nível mundial desmobilizando articulações de lutas contra o
Carrefour em vários países- quando buscaram indenizações milionárias para si enquanto
um negro foi assassinado, esses especuladores se alinham fortemente às
compensações do neoliberalismo.
A
idade do movimento negro organizado após a ditadura militar é quase
cinquentenária, são 45 anos desde a fundação do Movimento Negro Unificado – MNU
-, em 1978, meio século de trabalho físico e mental sem a possibilidade de
estrutura ou tecnologia social para colher a grande plantação que cultivou
durante décadas; esse espaço político do discurso racial tornou-se amplo e
vulnerável a vários segmentos sociais, tecnocratas, e instituições de Estado.
O
processo de burocratização da questão racial suprimiu ardilosamente a
importância das organizações do movimento social negro, ou seja, o discurso que
não interessa pela suposta “radicalidade” ou “divisionismo social”, porém ficou
explícita a disputa de poder e liderança política sobre a população negra.
O
monopólio midiático, o pensamento eurocêntrico acadêmico e a política tradicional
disputam a base social negra, seja, intelectualmente ou eleitoralmente onde
partidos, instituições públicas e privadas reproduzem o protagonismo retórico
positivista sobre a população negra com interesse arcaico de organização social
e segmento consumista na economia de mercado.
Nesse
sistema de disputa liderado por homens brancos que negociam o “Establishment” –
Grupo sociopolítico que exerce a ordem, privilégios e poder - a renovação de
lideranças negras é menos ideológica e menos estratégica sob a enorme pressão
do contexto centrista da Social - democracia que convive passivamente com o
regime capitalista impossibilitando mudanças estruturais e garantindo a
concentração de renda pela elite econômica.
Essa
tendência populista negra é uma armadilha de reprodução desse sistema que não
pode se desenvolver de maneira desenfreada sem que os principais protagonistas contemporâneos
sejam alertados para um comprometimento maior com um projeto estratégico
articulado para a construção de uma
“Nação Democrática Participativa, Popular e
Multirracial sem Qualquer tipo de Preconceito”.
“Rediscutindo
a Mestiçagem no Brasil”, 1999, do antropólogo Kabengele Munanga, analisa sobre a força contemporânea
da ideologia do branqueamento pensado pela elite brasileira entre o final do
século XIX e início do século XX sobre dificuldades e contradições de
entendermos várias armadilhas colocadas entre o debate de identidade nacional
versus identidade negra.
Na
senioridade, etapa importante na política, ainda existe a visão de inutilidade
deflagrada nas Revoluções Industriais quando os trabalhadores idosos eram
totalmente descartados em busca de mais produtividade, propiciando o aumento da
exploração geracional da classe trabalhadora; bem como a exploração do trabalho
infantil e das mulheres no mercado de trabalho.
A
história é uma base sólida ou vulnerável de uma nação, sem a consolidação
contínua da nossa história entre diferentes períodos e gerações não
alcançaremos nem mesmo o olhar civilizacional da ancestralidade africana.
Nos
antigos, mais velhos, povos originários, comunidades tradicionais, Candomblé,
Batuque, Umbanda; em tudo está o saber dos idosos.
Os
professores envelhecem e ficam mais sábios, o etarismo destrói a oralidade, o
saber das benzedeiras, rendeiras, quebradeiras de coco, pescadores artesanais,
andirobeiras, caatingueiros, caiçaras, quilombolas, ribeirinhos, xamãs.
O
etarismo interfere na cultura e educação popular; na capoeira, afoxés,
maracatus e carnaval.
Os
grileiros e garimpeiros ilegais matam as lideranças mais experientes dos
movimentos sociais e indigenistas. Contudo, o etarismo não pode enfraquecer o
respeito aos mestres e griôs, a importância histórica dos movimentos sociais e
a luta de libertação do povo negro. Zumbi e Dandara vivem!
EMIR
SILVA. ARTIGO POPULAR DE MOVIMENTO
SOCIAL.
EXECUTINA
NACIONAL DA ANLU- A NOSSA LUTA UNIFICADA.
CAMPO
DE REFLEXÃO, ANÁLISE E ARTICULAÇÃO POLÍTICA DO MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO-MNU.
PORTO
ALEGRE-RS, 7 DE ABRIL DE 2023.
