40 anos do MNU-
Movimento Negro Unificado. 1978-2018.
Território de
Resistência Negra, Oralidades
Tradicionais e Luta de Classes.
Por, Emir Silva. Comitê Internacional de Reparação e
Membro do MNU.
A organização matriarca do movimento negro brasileiro continua viva, não
está depressiva e observa com o braço direito levantado e punho cerrado
uma das maiores crises políticas da história do Brasil. Não estamos só olhando,
mas fazendo o que sempre fizemos, nunca paramos de lutar, até parece que esses
magnatas apareceram só agora, eles sempre assolaram o povo negro, indígenas e
pobres. O MNU mantém o que sempre fez , trabalhar cotidianamente para construir um
projeto político nacional do ponto de
vista do povo negro, que seja
fortalecido e integrado por outros segmentos multirraciais do campo democrático e popular. Não fomos
embebecidos com a ilusão de sermos protagonistas de qualquer processo político
se organizando no Terceiro Setor, nem ocupando espaços institucionais
imediatistas para a própria sobrevivência. Quem não tiver o discernimento que as ONG`S são partes funcionais da terceirização
precária das responsabilidades governamentais, como parte do modelo neoliberal,
não consegue compreender que políticas voluntaristas paliativas não são
estruturantes e que o papel do Estado não pode ser substituído nas bases populares; a não ser conscientizando e
organizando politicamente as comunidades.
O MNU se afirmou como organização
política negra, autônoma, independente e com forte viés pan-africanista, entre
outros campos teóricos. Somos um terreiro da resistência negra de ação contra
hegemônica ao capitalismo. O MNU carrega uma essência de oralidade ancestral
que fortalece seus militantes a romperem com o cativeiro intelectual e não se
rebaixarem ao centralismo das organizações
eurocêntricas que usurpam cotidianamente os ativistas negros e
negras. O movimento negro liberal,
integracionista, utilitarista também é diferente do MNU. Artistas negros Globais, alguns são muito
bons, mas diferentes do MNU. Quem age
individualmente perambulando somente em busca de ascensão política e
profissional é diferente do MNU. Trazemos a utopia da unidade organizacional
dos quilombos, pensamos questões estratégicas e analisamos a conjuntura
nacional e internacional para aprimorar nosso posicionamento político coletivo
sem vacilar, errar num processo político compromete e pode não ter mais volta
em reativar ações para desafios posteriores.
Por isto o MNU ainda está aí, boa
parte de quem forma opinião não gosta do nosso discurso, incomoda, mexe com as
zonas de conforto de quem não admite o
racismo como centralidade das desigualdades no Brasil e releva o problema racial ás questões de divisão de classe social. Isto
sempre dependerá de onde as pessoas se colocam na sociedade, como foram
formadas, o que aprenderam e quais suas
referências intelectuais e visão de vida.
Considero que a diversidade do movimento negro
brasileiro com suas características fragmentadas e temporais, cada um da sua
forma, teve papel fundamental nas
conquistas que obtivemos até agora desde a redemocratização. Sempre
denunciamos que existia uma elite cafona com poder econômico, aspirações
eurocêntricas e versões bregas nazifascistas. O sonho de ser americano ou
europeu permeou grande parte das metas da classe média brasileira. A base conceitual de nossas
instituições e intelectuais é basicamente reproduzir o conhecimento científico
e valores dos países imperialistas e neocolonialistas.
Parece que não se quer uma Nação também negra, se quer um país que seja
quintal do mundo, com anfitriões, homens brancos, se apresentando periodicamente para negociar seu próprio bem estar com
estrangeiros; governos, multinacionais, universidades, capital especulativo e
crime internacional organizado. Nesse
contexto podemos entender porque há
tanta defesa da mestiçagem, o mito da
democracia racial está cada vez mais vivo, os negativistas atacam o movimento
negro, o desdém também está no silêncio
diário da população aos assassinatos de crianças e jovens afrodescendentes, a cada 27 minutos. O silêncio homologa as
mortes. É muito difícil ouvir no Brasil, literalmente: ”o nosso país é racista”. As
pessoas acham que não há, só quando alguém sofre algo, daí pode ser, ou quando
a mídia promove, rola um debate. Estamos na segunda maior nação negra do mundo,
208 milhões de habitantes, 54% de afrodescendentes. O custo de exterminar o
povo negro é menor, é uma limpeza étnica para resolver problemas sociais que
nunca priorizaram resolver.
O marco da Constituição Federal,
em 1988, que deflagrou a redemocratização e também acionou o sonho de que a
política representativa nesse sistema desigual seria o caminho perfeito para
alcançar a igualdade social, naufragou. Talvez não tenham lembrado que, em
1989, o Consenso de Washington tinha deliberado a diminuição do Estado e
privatizações do serviço público. Agora,
estamos nas mãos de instituições lideradas por tecnocratas reacionários do
poder judiciário que alçaram posição
decisória no espaço público através da
meritocracia; ocuparam espaço no vácuo da crise e agem remediando as
transgressões dos grupos de interesses da elite econômica. O pragmatismo de
coligações eleitorais e composições de governabilidade misturaram a vanguarda
revolucionária com o coronelismo regional. Parecia que o sonho estava
tornando-se realidade, empresários do agronegócio, empreiteiras, grandes
indústrias, monopólios de comunicação, esquerda e centro-direita, todos juntos
para um Brasil melhor. Não tinha como funcionar, parecia a música do Cazuza:
“Brasil, mostra a tua cara...’’ O golpe do Governo Temer é resultante desses múltiplos responsáveis. Dos treze milhões de desempregados, quase
dez são negras e negros. Sobrou pra quem...
O
Estado Republicano de Direito está tonto, bêbado, sem rumos definidos, o país
das personalidades e personalismos ruiu entre a corrupção e o populismo. É inegável que nos governos Lula e Dilma as
políticas públicas específicas para população negra avançaram
consideravelmente, porém a titulação das terras quilombolas que faz contraponto ao grande latifúndio acabou
estagnada. O MNU está em pé porque
manteve uma postura coerente com suas convicções e deliberações congressuais. Em 2019 chegaremos ao XIX
Congresso Nacional, são quatro décadas de lutas, essa organização formou
gerações, é a Universidade de Base Negra
do Brasil, sem fazer vestibular, sem bater continência pra chefe de
corrente, aqui sempre debatemos as principais obras clássicas da filosofia e
ciências políticas de viés
eurocêntrico através do
contraponto produzido pelos maiores
filósofos e intelectuais pan-africanistas. Como dizia um velho militante:
“malandro sabe que pra vir pra cá, tem que romper com o lado de lá...
Sonhar é preciso, lutar necessário, vida longa
ao MNU!
Porto Alegre, 07 de Julho de
2018.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirParabéns ao MNU entidade que é referência na luta contra o racismo . Agradeço a oportunidade de fazer parte e pelos trabalhos que pude desenvolver na causa racial que são reconhecidos dentro e fora do Brasil. Vida Longa ao MNU
ResponderExcluirParabéns a todos nós por mantermos acesa a chama da resistência negra ancestral,através desta organização política da população negra brasileira. Obrigado pelo teu empenho, esforço e brilhantismo intelectual à frente do movimento social negro. Abraço ! Axé !
ResponderExcluirParabéns a todos nós por mantermos acesa a chama da resistência negra ancestral,através desta organização política da população negra brasileira. Obrigado pelo teu empenho, esforço e brilhantismo intelectual à frente do movimento social negro. Abraço ! Axé !
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