domingo, 8 de julho de 2018

FELIZ ANIVERSÁRIO AO MNU - MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO, 1978-2018 !


40 anos do MNU- Movimento Negro Unificado. 1978-2018.

Território de Resistência  Negra,  Oralidades  Tradicionais e Luta de Classes.

Por,  Emir Silva.  Comitê Internacional de Reparação e Membro do MNU.


   A organização matriarca do movimento negro brasileiro continua viva, não está depressiva  e observa  com o braço direito levantado e punho cerrado uma das maiores crises políticas da história do Brasil. Não estamos só olhando, mas fazendo o que sempre fizemos, nunca paramos de lutar, até parece que esses magnatas apareceram só agora, eles sempre assolaram o povo negro, indígenas e pobres. O  MNU  mantém o que sempre fez ,  trabalhar cotidianamente para construir um projeto político nacional  do ponto de vista do povo negro,  que seja fortalecido e integrado por outros segmentos multirraciais  do campo democrático e popular. Não fomos embebecidos com a ilusão de sermos protagonistas de qualquer processo político se organizando no Terceiro Setor, nem ocupando espaços institucionais imediatistas para a própria sobrevivência.  Quem não tiver o discernimento  que as ONG`S  são partes funcionais da terceirização precária das responsabilidades governamentais, como parte do modelo neoliberal, não consegue compreender que políticas voluntaristas paliativas não são estruturantes e que  o papel do Estado  não pode ser substituído nas  bases populares; a não ser conscientizando e organizando politicamente as comunidades.
   O MNU se afirmou como organização política negra, autônoma, independente e com forte viés pan-africanista, entre outros campos teóricos. Somos um terreiro da resistência negra de ação contra hegemônica ao capitalismo. O MNU carrega uma essência de oralidade ancestral que fortalece seus militantes a romperem com o cativeiro intelectual e não se rebaixarem  ao centralismo das  organizações  eurocêntricas que usurpam cotidianamente os ativistas negros e negras.  O movimento negro liberal, integracionista, utilitarista também é diferente do MNU.  Artistas negros Globais, alguns são muito bons,  mas diferentes do MNU. Quem age individualmente perambulando somente em busca de ascensão política e profissional é diferente do MNU. Trazemos a utopia da unidade organizacional dos quilombos, pensamos questões estratégicas e analisamos a conjuntura nacional e internacional para aprimorar nosso posicionamento político coletivo sem vacilar, errar num processo político compromete e pode não ter mais volta em reativar ações para desafios posteriores.
   Por isto o MNU ainda está aí, boa parte de quem forma opinião não gosta do nosso discurso, incomoda, mexe com as zonas de conforto  de quem não admite o racismo como centralidade das desigualdades no Brasil  e releva o problema racial  ás questões de divisão de classe social. Isto sempre dependerá de onde as pessoas se colocam na sociedade, como foram formadas, o que aprenderam  e quais suas referências intelectuais e visão de vida.
   Considero que a diversidade do movimento negro brasileiro com suas características fragmentadas e temporais, cada um da sua forma,  teve papel fundamental nas conquistas que obtivemos até agora desde a redemocratização.    Sempre denunciamos que existia uma elite cafona com poder econômico, aspirações eurocêntricas e versões bregas nazifascistas. O sonho de ser americano ou europeu permeou grande parte das metas da classe  média  brasileira. A base conceitual de nossas instituições e intelectuais é basicamente reproduzir o conhecimento científico e valores dos países imperialistas e neocolonialistas.
   Parece que não se quer uma Nação também negra, se quer um país que seja quintal do mundo, com anfitriões, homens   brancos, se apresentando periodicamente  para negociar seu próprio bem estar com estrangeiros; governos, multinacionais, universidades, capital especulativo e crime internacional  organizado. Nesse contexto podemos entender  porque há tanta  defesa da mestiçagem, o mito da democracia racial está cada vez mais vivo, os negativistas atacam o movimento negro, o desdém também está no  silêncio diário da população aos assassinatos de crianças e jovens afrodescendentes,  a cada 27 minutos. O silêncio homologa as mortes.  É muito difícil ouvir no Brasil,  literalmente: ”o nosso país é racista”. As pessoas acham que não há, só quando alguém sofre algo, daí pode ser, ou quando a mídia promove, rola um debate. Estamos na segunda maior nação negra do mundo, 208 milhões de habitantes, 54% de afrodescendentes. O custo de exterminar o povo negro é menor, é uma limpeza étnica para resolver problemas sociais que nunca priorizaram  resolver.
   O marco da Constituição Federal, em 1988, que deflagrou a redemocratização e também acionou o sonho de que a política representativa nesse sistema desigual seria o caminho perfeito para alcançar a igualdade social, naufragou. Talvez não tenham lembrado que, em 1989, o Consenso de Washington tinha deliberado a diminuição do Estado e privatizações  do serviço público. Agora, estamos nas mãos de instituições  lideradas por tecnocratas reacionários do poder judiciário que alçaram  posição decisória no espaço público através da   meritocracia; ocuparam espaço no vácuo da crise e agem remediando as transgressões dos grupos de interesses da elite econômica. O pragmatismo de coligações eleitorais e composições de governabilidade misturaram a vanguarda revolucionária com o coronelismo regional. Parecia que o sonho estava tornando-se realidade, empresários do agronegócio, empreiteiras, grandes indústrias, monopólios de comunicação, esquerda e centro-direita, todos juntos para um Brasil melhor. Não tinha como funcionar, parecia a música do Cazuza: “Brasil, mostra a tua cara...’’ O golpe do Governo Temer  é resultante desses múltiplos responsáveis.  Dos treze milhões de desempregados,  quase  dez são negras e negros. Sobrou pra quem...
   O Estado Republicano de Direito está tonto, bêbado, sem rumos definidos, o país das personalidades e personalismos ruiu entre a corrupção e o populismo.  É inegável que nos governos Lula e Dilma as políticas públicas específicas para população negra avançaram consideravelmente, porém a titulação das terras quilombolas que faz  contraponto ao grande latifúndio acabou estagnada.   O MNU está em pé porque manteve uma postura coerente com suas convicções e deliberações  congressuais. Em 2019 chegaremos ao XIX Congresso Nacional, são quatro décadas de lutas, essa organização formou gerações, é a Universidade de Base Negra do Brasil, sem fazer vestibular, sem bater continência pra chefe de corrente, aqui  sempre debatemos as  principais obras clássicas da filosofia e ciências políticas de viés  eurocêntrico  através do contraponto  produzido pelos maiores filósofos e intelectuais pan-africanistas. Como dizia um velho militante: “malandro sabe que pra vir pra cá, tem que romper  com o lado de lá...
 Sonhar é preciso, lutar necessário, vida longa ao MNU! 

Porto Alegre, 07 de Julho de 2018.                  

4 comentários:

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  2. Parabéns ao MNU entidade que é referência na luta contra o racismo . Agradeço a oportunidade de fazer parte e pelos trabalhos que pude desenvolver na causa racial que são reconhecidos dentro e fora do Brasil. Vida Longa ao MNU

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  3. Parabéns a todos nós por mantermos acesa a chama da resistência negra ancestral,através desta organização política da população negra brasileira. Obrigado pelo teu empenho, esforço e brilhantismo intelectual à frente do movimento social negro. Abraço ! Axé !

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  4. Parabéns a todos nós por mantermos acesa a chama da resistência negra ancestral,através desta organização política da população negra brasileira. Obrigado pelo teu empenho, esforço e brilhantismo intelectual à frente do movimento social negro. Abraço ! Axé !

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